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Somos todas passivonas? A batalha da cabeça moderna X o coração vintage

Soltos S.A.

13/04/2020 16h19

(Dina Goldstein)

O texto de hoje é pra falar sobre aquela mulherzinha que existe dentro de nós: a passivona. Aquela que ainda espera o cara fazer o primeiro movimento em toda a linha da vida amorosa: desde o oi depois do match do aplicativo até o – sonhado por muitas – pedido de casamento.

Eu sei que existem cada vez mais mulheres seguras, empoderadas, que chegam chegando, flertam sem medo, mandam mensagem, convidam pro sexo e dispensam a conchinha… Vocês são maravilhosas! Quando crescer quero ser que nem vocês. Mas, por que por enquanto eu ainda faço parte da grande maioria estatística das passivonas.

Pois é, segundo uma pesquisa americana desenvolvida para o livro Modern Romance, apenas 12% das americanas tinham convidado caras para um date no último ano. Ou seja, 88% provavelmente ficaram (como já fiquei muitas vezes) checando o celular 200 vezes na expectativa de receber um convite para um drink, ou digitando e apagando inúmeras mensagens para tentar flertar com um contatinho sem nunca enviar uma vírgula e acabaram com aquele combo frustração, mais taças de vinho do que o fígado suporta e aquela sensação de coitadismo. Até quando senhor?

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E o mais louco é pensar que provavelmente essas mulheres, assim como eu, são independentes, modernas e desconstruídas em várias facetas da vida. Gente que empreende, que se arrisca, que recicla o lixo, viaja sozinha, segura a barra do tio deprimido, da irmã recém-divorciada com três filhos e ainda ensina a avó a fazer supermercado pelo Rappi enquanto faz uma pós via EAD no site de Harvard. Verdadeiras divas contemporâneas! Mas ainda assim, toda essa atitude na vida não se transfere pras relações amorosas. É como se tivéssemos prendido os corações numa cápsula do tempo lá em 1800 e tanto. Como faz pra atualizar este software?

À ESPERA DE UM MILAGRE – O CICLO DE VIDA DE PAQUERA DA PASSIVONA 

Esperar é o verbo da passivona. Pois mesmo que a gente faça um "meio movimento" rumo ao flerte, na nossa cabeça existe a falácia de que a concretização do próximo passo tem que vir do cara. No fundo é como se déssemos a eles o privilégio de ditar o ritmo: ele vai definir quando vai chegar em você, quando vai te convidar pra sair, de saídas durante a semana vs. finais de semana, quanto tempo vai demorar pra relação "mudar de fase"… E haja omeprazol e ansiodorum pra segurar tanta gastrite e ansiedade.

E A PASSIVONA TAMBÉM TÁ NO DIGITAL

Esse comportamento é tão estabelecido que uma das fundadoras do Tinder, a americana Whitney Wolfe Herd, saiu da empresa para lançar um app que estimula as mulheres a tomarem atitude nos dates virtuais: o Bumble. Ela percebeu no Tinder que a maior parte das mulheres, mesmo após o match, tinha vergonha de puxar assunto e iniciar a conversa com os caras – olha aí a passivona 2.0! No Bumble, pra quebrar esse bloqueio, após o match, o papo só começa se a mulher fizer o primeiro movimento. E esse primeiro "oi" tem que rolar até 24hs depois do match, se não a pessoa some da sua lista. Isso é que é empurrãozinho de empoderamento digital hein? Segundo Whitney essa mecânica quer "inverter as regras antiquadas que ditam que a atitude deve ser sempre do homem"

GATAS BORRALHEIRAS PRODUZIDAS VIA LAVAGEM CEREBRAL 

A verdade é que fomos educadas para esperar e servir. Regina Navarro Lins publicou recentemente um texto aqui no Universa apontando como as histórias de princesas deveriam ser esquecidas. Olha aí uma leva inteira de passivonas disfarçadas em vestidos bufantes da Disney! A gente aprende na Cinderella que todas as mulheres têm que esmagar seus pés para tentar fazê-los caber no sapato encontrado por aquele príncipe – que aliás não mostrou nenhum atributo além da beleza física como carinho, inteligência, cordialidade… para que toda a mulherada do reino arriscasse gangrenar os pés por ele. Bastou ser príncipe e pronto – que posição mais confortável né?E a tal Cinderella é enaltecida por ser passivona: obedecer calada e engolir seco os maus tratos da madrasta e das irmãs megeras. E a Bela Adormecida então? Se o cara não tivesse aparecido ela ia estar num coma eterno até agora… Onde mesmo acharam que isso era educar a gente? 

Na minha escola tinha um jogo chamado "casamento chinês". As meninas de 10 anos se enfileiram e, um a um, os meninos entravam e apontavam "quero casar com essa". Caso um moçoilo apontasse para uma menina já escolhida, ela dava um tapa nele. Olha aí a "formação anos 80"! Pré-puberdade e você já entende que tem que estar linda na prateleira. Claro que nossa cabeça é cagada!

RESSACA MORAL , TEMOS AQUI!

O pior é que a cada pequeno movimento que a gente faz pra tentar tomar as rédeas da situação e as coisas não rolam, bate uma rebordosa. Quantas vezes você já não pensou "será que pressionei muito", "será que estava disponível demais?", "será que não devia ter falado sobre viajar pra Camburi?". Toda semana a gente recebe chuva de mensagens assim no inbox do Soltos s.a., de mulheres incríveis achando que a culpa das coisas terem desandado é delas. Não é à toa que culpa é uma palavra feminina né?

Eu sei que é careta, eu sei que é absurdo, mas já me peguei algumas vezes pensando que talvez a história não tenha ido pra frente porque eu transei logo com o cara e ele achou que ia ser só sexo. Eu sei gente, 2020 não deveria pensar isso.. Mas eu e as tais 88% das mulheres da pesquisa americana vivem fazendo esse mea culpa. 

LIGA DA MORAL E BONS COSTUMES, SEMPRE ALERTA

E não bastasse nossas próprias nóias, temos toda uma roda de amigos e familiares colocando dedo na nossa cara para apontar que suas atitudes mais livres foram erradas ou precipitadas e essa foi a razão de você não ter sido "escolhida". Nesse reveillon tava rolando um clima de micareta. os homens beijando uma a cada dia. Entrei na onda e beijei vários. Me diverti. Na volta, tive que ouvir de amigas super descoladas e bem resolvidas o seguinte sermão: "também, ficando com um em cada dia você esperava mesmo que algum deles quisesse engatar uma historinha?" Se fosse minha avó falando isso até aceitaria, mas amigas de 35 anos? 

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Pra completar essa equação complexa da vida da passivona, descobrimos que muitos os homens realmente não valorizam as mulheres de atitude. Entrevistamos Ismael dos Anjos coordenador do documentário e da pesquisa sobre masculinidades O silêncio dos homens (assistam!). Ele nos contou que 50% dos caras foram ensinados que é papel do homem conquistar a mulher. Ou seja, metade dos boys realmente vai sentir intimidado se a mulher tomar a iniciativa e pode te desdenhar – confirmando a teoria de suas amigas carolas.  

A gente sabe que é difícil, que faz parte da cultura, mas tá na hora de rever nossos conceitos e sair desse papel. No nosso próximo texto, vamos trazer algumas dicas práticas pra matarmos a passivona que existe dentro da gente. Aguardem!

Se você quer saber como sobreviver à solteirice em tempos de likes para além dos dias de folia, segue a gente no youtube e no instagram. Toda semana a gente entrevista solteiros, especialistas e divide nossos aprendizados e teorias. Segunda e quarta estamos por aqui! Manda histórias, questões, dilemas que a gente transforma em pauta!…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre os autores

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia. Comunicadores, puxam assunto até com o poste e são formados como psicólogos de boteco. Há um ano eles conversam com todo tipo de solteiros e especialistas no soltos s.a. um canal de youtube, instagram e, agora blog, pra explorar as dores e delícias dessa vida solta. Ninguém entende de solteirice como eles: já foram convidados pra falar na Casa TPM, na GNT e no podcasts Mamilos e Sexoterapia (aqui em Universa).

Sobre o blog

Um espaço para trocar estratégias para sobreviver à solteirice e aos relacionamentos em tempos de likes. Quando vale ter uma DR e quando podemos deixar morrer no silêncio? O que significa esse emoji? Assistir stories significa? Experts em solteirice e ótimos psicólogos de boteco, André e Carol compartilham dilemas reais de solteiros e mapeiam possíveis caminhos para não perder a sanidade mental nessa era de contatinhos.