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Montanha russa emocional na pandemia não é desculpa pra ser babaca

Soltos S.A.

06/07/2020 04h00

fonte: br.freepik

Ontem passei a noite no zoom consolando uma amiga que teve o coração partido virtualmente. Há 21 dias ela estava engatada num romance com ares do puro conto de fadas quarentênico: Ela e o boy se conheceram num app de suruba mas, por conta do isolamento social, logo decidiram que, em vez de levar o papo logo para a putaria, iriam aproveitar o tempo e a boa conexão de internet para se conhecerem melhor. Ela estava se sentindo a própria paladina do amor em meio à uma rede rodeada por hormônios e nudes e, alegre, me mandava reports diários com os prints, áudios e mensagens cada vez mais profundas e filosóficas. Foram 21 dias de conversas ininterruptas que, segundo mensagens do próprio cara, fazia ele ter certeza que os dois tinham sido feitos um pro outro. 

Eles completavam as frases um do outro, gostavam dos mesmos livros, da mesma pousada em São Francisco Xavier, do mesmo disco do Caetano… Estavam se amando em todas as plataformas: viram filme juntos por Skype, compraram sementes no Mercado Livre para fazerem hortinhas em seus apês, vararam a noite mostrando álbuns de família no zoom e, ele até mandou jantar surpresa via ifood. Mas o que parecia ser o enredo de "amor nos tempos de Corona" se revelou um remake barato do clichê não 'não é você sou eu". Pois é, nem tudo mudou com a quarentena…

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Se não sabe brincar, não desce pro play

Depois de desaparecer por dois dias, o cara mandou um textão (nem zoom rolou) dizendo que quando ele se conecta com uma mulher intelectualmente, ele acaba perdendo o interesse sexual . Disse que o problema era ele, não ela (aff…),  que a conexão total tinha acabado com o tesão mas que não queria perdê-la e amaria que eles fossem amigos pois isso iria ajudá-lo muito nesses tempos difíceis de pandemia. Oiiiiii!! Se ele já sabia que esse é o modus operandi torto da sua própria libido, por que ele se empenhou tantor nessa troca prometendo um amor diferente? Na minha opinião ele não tá precisando de uma hortinha ou uma amiga, e sim de uma psicanalista, com urgência!

Foi comprar um álcool gel e nunca mais voltou 

Infelizmente o pseudo-príncipe do app de suruba não é o único cara sem noção na pandemia. Eu mesma ,já amarguei um bolo por zoom. Logo que o isolamento começou topei responder um "oi sumida" de um ex-casinho gringo e desenferrujei meu inglês em mensagens fofas de áudio e vídeo,. Marcamos um date por zoom. Me produzi toda, gastei perfume caro, passei uma hora tentando achar a melhor luz do apartamento e, na hora marcada: ele estava offline. E está até hoje! Na mesma velocidade que me requentou, ele me bloqueou. Foi comprar álcool-gel e não voltou nunca mais. Quando contei essas duas histórias num whatsApp de solteiros, descobri que tá rolando uma epidemia de gente que faz rápidas juras de amor e some na tal nuvem de álcool-gel – tanto homens quanto mulheres tá? 

Redobrando o cuidado com a higiene e com os corações alheios.

A mesma atenção que a gente tá tendo pra besuntar as compras de supermercado de álcool deveria ser aplicada no cuidado com as emoções dos crushes. Tá todo mundo à beira de um ataque de nervos, exaustos de lavar privada. Se prometer amor eterno e sumir na nuvem de fumaça já não era legal no "velho normal", agora no "novo normal" é pior ainda. Lembra do Pequeno Príncipe: "te tornas responsável por aquilo que cativas"? Pois é, responsabilidade afetiva é tão essencial quanto máscara e distanciamento social. 

Achei que era amor mas era carência

Depois de 100 dias sem abraços, é tentador que a gente se agarre ao primeiro paquera que se fizer presente por mais de 3 dias consecutivos, e o crush também pode projetar um amor e uma cabana rapidinho com a gente. Momento "lente da verdade": será que a gente não se aproveita da carência do coleguinha pra tapar a nossa carência também?

A gente sabe quando tá sendo fofo, quando tá jogando iscas e prometendo castelos e a verdade é que muitas vezes a gente faz isso porque tá carente e quer o famoso "biscoito". Eu mesma confesso que alimentei um papinho virtual esses dias mais pra me sentir desejada do que por que eu tava realmente a fim do cara. Acordar com mensagem de música fofa e poder ter alguém que me faça rir numa terça à noite depois de 9 reuniões por zoom é uma delícia. Mas não dá pra fazer a candidata política e sair prometendo mundos e fundos só pra garantir o voto (ou no nosso casos os afetos virtuais) e, quando nossa carência se aplaca, vir com o papinho do "não é você, sou eu" ou "não tô num bom momento".

Montanha-russa emocional não é atenuante

Confesso que eu mesma já quase fui crush lixo na quarentena e quis colocar a culpa em todo esse mal-estar gerado pelos novos e caóticos tempos. Sinto que meus dias são uma versão melodramática daquele filme Fragmentado, em que o James McAvoy possui 23 personalidades distintas, que se alternam num piscar de olhos. Tem dias em que eu super quero uma conchinha virtual e torço pro novo crush me mandar mensagem fofa, e outros em que quero deixar o celular offline e me afundar no edredom e na 4a temporada de This is Us.

A vida tá caótica, tem dias em que bate a angústia por que os boletos não param de chegar, por que as notícias são desesperadoras e por que minha avozinha de 94 anos está sozinha em casa morrendo de medo do mundo. É natural que esse combo não me deixe no modo mais paquerativo da vida. Além disso, s vezes dá preguiça de ligar a câmera, encarar a ressaca do dia seguinte e papear por horas sem perspectiva do tal encontro ao vivo (imagina se rola todo o match intelectual mas não rola química no beijo). E aqui vale o clichê do "não faça com o outro o que não gostaria que fizessem com você". Depois do meu bolo virtual com o tal gringo, nunca mais desmarquei um papinho em cima da hora. Se a tarde já vejo que tô num dia trevas, invento uma desculpa fofa e remarco. Ou sou sincerona e falo que tô num dia doido mesmo. Assim a pessoa pode se organizar pra maratonar uma série, cozinhar um pão ou até paquerar outra pessoa virtualmente. Deixa ela ser feliz né?

Amor em doses homeopáticas

Pensando na história da tal amiga e nos vários amores virtuais que sumiram na nuvem de álcool gel, acho que doses de carinho homeopáticas são o protocolo mais seguro quando tá todo mundo à flor da pele. Assim a gente evita passar a mensagem errada pro crush e também breca a loucura de que esta é a pessoa que nos salvará da solidão. Ir aos poucos ajuda também a tirar a pressão de ter que estar sempre pronta pra um zoom. Talvez nossas histórias de amor quarentênicas sejam menos cinematográficas, mas serão mais saudáveis.

Se você quer saber como sobreviver à solteirice em tempos de likes, segue a gente no YouTube e no Instagram. Toda semana a gente entrevista solteiros, especialistas e divide nossos aprendizados e teorias. Mande histórias e dilemas que a gente transforma em pauta!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre os autores

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia. Comunicadores, puxam assunto até com o poste e são formados como psicólogos de boteco. Há um ano eles conversam com todo tipo de solteiros e especialistas no soltos s.a. um canal de youtube, instagram e, agora blog, pra explorar as dores e delícias dessa vida solta. Ninguém entende de solteirice como eles: já foram convidados pra falar na Casa TPM, na GNT e no podcasts Mamilos e Sexoterapia (aqui em Universa).

Sobre o blog

Um espaço para trocar estratégias para sobreviver à solteirice e aos relacionamentos em tempos de likes. Quando vale ter uma DR e quando podemos deixar morrer no silêncio? O que significa esse emoji? Assistir stories significa? Experts em solteirice e ótimos psicólogos de boteco, André e Carol compartilham dilemas reais de solteiros e mapeiam possíveis caminhos para não perder a sanidade mental nessa era de contatinhos.