PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Como congelar meus óvulos me fez rever minha solteirice

Soltos S.A.

29/06/2020 04h00

fonte:brfreepik

Os 40 são os novos 20 mas o maldito relógio biológico ainda existe. Semana passada uma amiga me ligou aflita: sua irmã, de 39 anos tinha decidido congelar óvulos e recebeu a notícia do ginecologista que já não seria possível, pois seus ovários não tinham reserva suficiente. Eu congelei meus óvulos aos 33 e, na época, essa mesma amiga dizia que eu estava me precipitando. Hoje, solteira e com 36 anos assim como eu, ela me pedia informações sobre o procedimento. Sei que faço parte de uma minoria privilegiada – infelizmente os tratamentos são caros e ainda não há sistemas de congelamento na rede pública. Mas vejo que mesmo entre as mulheres que poderiam se organizar para congelar, muitas não o fazem por medo, preconceito internalizado, insegurança e erros de timming.

 Apesar do número de embriões congelados ter crescido 17% ao ano no Brasil  ainda rola uma espécie de congelamento social pra falar do tema, e eu queria dividir minha experiência pra tentar desconstruir alguns tabus. Acredito que quanto mais mulheres falarem abertamente sobre isso, mais confortáveis estaremos em considerar esta opção e mais tranquilamente poderemos nos organizar.

Veja também

O meu processo de decisão não foi fácil e eu percebi que pra além das dúvidas e questões práticas (que são muitas), meu maior desafio foi vencer preconceitos internos e encarar meus próprios fantasmas e medos.

Encalhada ou precavida?

Tinha 32 anos quando meu pai veio perguntar se eu já tinha considerado a possibilidade de congelar óvulos. A filha de um amigo dele havia acabado de realizar o procedimento e ele trouxe o assunto pra mesa. Perdi a fome na hora. Na época estava solteira há quatro anos e a pergunta dele e bateu em mim de uma forma totalmente torta. Eu ouvi assim: "já que você está encalhada, já passou dos 30 e está sem perspectivas de romance, é melhor se precaver…". Na minha cabeça era como se congelar os óvulos fosse "apelar no jogo". Como se eu não tivesse tido capacidade pra jogar o tal jogo da paquera-namoro-acasalamento-família feliz e tivesse que usar uma ajudinha externa. Precisei de muitas sessões de análise pra entender que não era nada daquilo. Congelar os óvulos não era um atestado da minha incapacidade de ter uma relação amorosa, e sim uma oportunidade de eu me organizar e pra viabilizar um sonho.

Amanhã eu penso nisso

Após ficar extremamente irritada, brigar com meu pai, e ir tentar descontar a raiva nos aplicativos de date –  sai metralhando coraçãozinho a torto e a direito numa loucura inconsciente de provar pra mim mesma que se eu quisesse eu poderia arranjar um namorado, sim e ter o tal filho a partir das vias normais (Tava louca? Sim, ou com certeza?); coloquei a questão sobre congelar óvulos naquela maravilhosa caixa do "amanhã eu penso nisso". Aquela caixa que guarda todas as questões que incomodam a gente, mas que a gente tá sem saco ou estrutura emocional pra lidar no presente momento.

Tanto pela grana (o investimento é de 10 a 20 mil reais) como por essa sensação de derrota, essa é uma daquelas decisões que a gente vai deixando pra amanhã,e pro mês que vem e pro ano que vem… O problema é que na hora em que o cara calo apertar e a gente resolver sondar o tal procedimento, pode ser tarde demais. Tenho algumas amigas entre 37 e 40 anos que tentaram congelar os óvulos, mas já não tinham a quantidade mínima suficiente em seus ovários. A recomendação dos médicos é que o procedimento seja feito até os 35 anos. Isso porque, não só temos mais óvulos disponíveis, como por que eles tendem a ser mais saudáveis. Dá raiva pensar que envelhecer é não só lidar com as rugas e com a dor no ciático, mas também encarar que seus óvulos vão dar uma "murchada" né? Mas temos que encarar os fatos de frente.

Planejamento e não tiro de misericórdia.

Se as estatísticas comprovam que as mulheres estão tendo filhos cada vez mais tarde (o número de mulheres que têm filhos entre 40 e 45 anos cresceu 36% entre 2018 e 2008, segundo o IBGE), por que a gente não se planeja pra isso? E por que essas conversas não começam quando temos 28, 30 anos?

 A gente se planeja e se organiza financeiramente pra comprar um carro, pra realizar o sonho da casa própria, pra fazer uma viagem pro exterior ou cursar uma pós-graduação. Por que não podemos também nos planejar financeira e emocionalmente pra essa possibilidade de termos filhos mais tarde?

Parece que quando somos mais novas rola um pensamento de "não vou gastar aqui enquanto ainda não preciso". Mas pra mim ajudou ver o congelamento da mesma forma como a gente vê seguro saúde, seguro de vida ou seguro de carro. Você espera não precisar usar, mas, caso precise, tá respaldada.  

Você vai inchar, vai chorar, mas vai valer a pena

Vejo muitas amigas dizendo que temem essa avalanche emocional que pode vir com o procedimento e queria dizer que não é nada desesperador. Claro que cada corpo reage de um jeito. Pra mim rolou uma espécie de TPM mais acentuada e um mês mais inchada. Nada que a gente já não tenha passado. Vão ser dias mais sensíveis, então já prepara os filmes românticos e aciona as amigas boas de colo pra te ajudar. Mas passa rápido.

A alegria de fazer algo por mim

Sei que congelar os óvulos não é garantia de gravidez. Não é como se o jogo tivesse ganho e eu empurrasse a questão maternidade de novo pra caixa do "amanhã eu penso nisso". Mas a verdade é que ter feito isso por mim me tirou uma pressão interna e me fez sentir que eu tava cuidando de um sonho meu. 

Pode ser que eu nem use os tais óvulos congelados. Ainda quero encontrar um cara legal, construir uma relação bacana e engravidar pelas vias naturais. Mas acho sensato ter este plano B. Pra mim o congelamento é também empoderamento.

 Além disso, o congelamento também me blindou de uma série de comentários babacas de homens ou tias enxeridas. Por que, não sei vocês, mas assim que passei dos 30 tive que encarar caras , no 1º encontro, afirmando sem a menor cerimônia "36 anos você tem né? aposto que tá doida pra ter filhos. Chega perto dos 35 e todas tão doidas pra engravidar, já sai com muitas assim". Parece que na virada dos 30 a gente vira úteros ambulantes, prestes a engolir seus espermatozóides na primeira troca de fluidos. É como se a vida virasse um war e nosso único objetivo não fosse mais conquistar uma carreira bacana, viajar, estudar… e sim, ter um filho, a qualquer custo e o mais rápido possível, afinal o tempo está se esgotando. Não gatos, apenas parem!

Nesses casos respondo sarcástica:  "Olha, eu até quero ter filhos sim, mas não com caras que fazem esse tipo de comentário. Congelei meus óvulos pra ver se dá tempo dos boys como você amadurecerem. Beijo, não me liga!" Me levanto diva, apago o contato do fulano e sigo minha vida.

Eu, que aos 32 quis matar meu pai por trazer esse assunto pra pauta do jantar familiar, hoje o agradeço muito. Se não fosse por este papo, provavelmente também teria deixado pra pensar nisso nos 45 do segundo tempo, correndo o risco de não conseguir realizar o procedimento. Hoje sou a maior militante do congelamento e acho que, se você tiver condições, ele deve ser realizado perto dos 30. Congelar me deu a tranquilidade de entender que posso sonhar e batalhar pelas minhas conquistas profissionais e também pelas amorosas/pessoais. Desejar sem mãe é legítimo e a gente não precisa deixar um sonho tão lindo ficar 100% à merce do acaso, não é mesmo? E você, já pensou em congelar?
Se você quer saber como sobreviver à solteirice em tempos de likes, segue a gente no YouTube e no Instagram. Toda semana a gente entrevista solteiros, especialistas e divide nossos aprendizados e teorias. Mande histórias e dilemas que a gente transforma em pauta!

Sobre os autores

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia. Comunicadores, puxam assunto até com o poste e são formados como psicólogos de boteco. Há um ano eles conversam com todo tipo de solteiros e especialistas no soltos s.a. um canal de youtube, instagram e, agora blog, pra explorar as dores e delícias dessa vida solta. Ninguém entende de solteirice como eles: já foram convidados pra falar na Casa TPM, na GNT e no podcasts Mamilos e Sexoterapia (aqui em Universa).

Sobre o blog

Um espaço para trocar estratégias para sobreviver à solteirice e aos relacionamentos em tempos de likes. Quando vale ter uma DR e quando podemos deixar morrer no silêncio? O que significa esse emoji? Assistir stories significa? Experts em solteirice e ótimos psicólogos de boteco, André e Carol compartilham dilemas reais de solteiros e mapeiam possíveis caminhos para não perder a sanidade mental nessa era de contatinhos.