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Meu ex começou a namorar e eu não. Por que isso incomoda tanto?

Soltos S.A.

24/08/2020 04h00

Foto de Zach Kadolph via Unsplash

Quem nunca deu uma mini surtada quando descobriu que o ex tinha começado a namorar outra? Essa semana acordei aflita com meu celular tocando 1h30 da manhã. Meu lado fatalista acha que ligações de madrugada são sempre presságios de tragédias. Em tempos de pandemia então…Caço meu telefone na cama já pensando nos meus tios idosos mas vejo no visor o nome de uma amiga: Bia. Ela se desculpa pelo horário mas diz que está angustiada com um problema mundano, cretino, mas doído: em fatídico último scroll do Instagram antes de dormir,ela havia descoberto que seu ex-namorado estava oficialmente namorando outra pessoa. E ela não conseguia entender por que, com o mundo de cabeça pra baixo como, aquela informação a estava incomodando tanto. 

Ela e o tal ex já estavam separados há dois anos, foi ela quem quis colocar o ponto final na relação e até então estava super bem-resolvida com o término (voltar nem pensar!). Bia vivia na pura oscilação entre autodates delícia e aventuras no maravilhoso atacadão de crushes potenciais dos apps de paquera. Mas bastou saber que o ex tinha mudado o status no Facebook, que todo o seu deliciamento com a própria solteirice foi substituído por um misto de raiva, gastrite e inveja. Você também já se sentiu assim?

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Da ex-fofa para a ex-stalker é um pulo

Fui super solidária com a aflição de Bia porque confesso que eu já fui a ex-louca numa situação semelhante: a relação acabou, foi cada um para seu lado de maneira bem civilizada, cheia das frases clichês à la "torço por você e quero que você seja feliz". A gente até quer que o ex seja feliz mas parece que ele não pode estar mais feliz do que a gente. É horrível mas assumo que já me peguei pensando "Não quero que a vida dele esteja muito melhor do que a minha. Se puder estar um pouquinho pior… melhor! Assim posso até fazer a "ex-apoiativa" e me colocar à disposição pra ajudar". Se a pessoa deslancha no trabalho, muda de país, compra uma casa ou começa a namorar… parece que ela está muito mais feliz do que eu só por que está esfregando novidades na minha cara e talvez até esteja bem mais feliz do que quando estava comigo ("nunca tinha visto um sorrisão desses na minha gestão").

Quando soube que meu ex-namorado estava com outra pessoa, todo meu lado equilibrado e bem-resolvido mandou um beijo e deu espaço para a doida do stalking. É um comportamento horrível mas muito comum e mundano né? Pra tentar desligar a Carol louca que existe em mim fiquei elocubrando as nóias que são gatilhos pra esse incômodo meu, da Bia e talvez de muitas de vocês.

Primeiro a gente compete com o ex: "ele passou de fase e eu não"

Sabe a lógica do Jogo da Vida, onde o objetivo é você chegar ao final do tabuleiro com o carrinho cheio de pininhos de marido e filhos? Parece que quando o ex aparece namorando é como se ele tivesse "passado de fase" no tal jogo e você tivesse ficado pra trás. Isso reflete mais uma vez o estigma de que a solteirice é fracasso social e de que quem está solteiro está pior do que quem está num relacionamento. 

Por mais que no período pós-namoro tenhamos conhecido um monte de gente nova, retomado os estudos de astrologia, viajado pelo sul da Bahia e gozado com um vibrador novo como nunca antes, ainda bate uma sensação de que estamos paradas no mesmo lugar só pelo fato de não termos oficializado uma nova relação. E aí acho que vale prestar atenção. É como se a gente sentisse que a felicidade da solteira vale menos e que muitas vezes é vista como recalque ou sorriso de fachada. Ou seja, a gente pode falar a torto e à direito que a solteirice é maravilhosa e que não tem nada de errado com ela, mas enquanto nos sentirmos perdedoras por dentro porque não colocamos mais um pininho no nosso carrinho, de nada vale o ativismo pró-solteirice.

Segundo a gente compete com a nova relação: "comigo não era assim"

Não bastasse competir com o ex, parece que nesse combo da louca surge também a vontade de comparar a relação que ele tem agora com a que tínhamos com o dito cujo. É aí que o stalking surge como porta de entrada pra neuroses mais pesadas. A minha pira é comparar como meu ex se comporta como namorado nas redes sociais verus como ele era comigo. No nosso namoro ele fazia o discreto, só fotos conceituais, de paisagem… Um post no dia dos namorados e olhe lá. Já com ela é chuva de post com coração, fotos de flagras fofo no apartamento (que tá bem mais arrumadinho do que na minha época) e textão na legenda com declarações… Me dá uma raiva!! Já me pego pensando: O que ela fez que eu não fiz pra já chegar chegando de 1a dama instagrâmica do boy?

Quando os posts são frequentes e a gente tem tempo disponível, essa loucura CSI comparativa é um buraco sem fundo: já me peguei colocando os rótulos de vinho que ele postou tomando com ela no Vivino e ficando doida ao perceber que eram vinhos muito melhores do que os da safra do meu namoro; comparando os destinos das viagens, os presentes trocados… Já quando o cara não posta muito, a neurose também aparece belíssima porque eu me pego pensando: o que eles estão fazendo de tão gostoso que não tão postando foto nas redes sociais? Ou seja, toda a alegria que eu vivia ao ver minhas fotos artísticas semi-sensuais levantando bola para xavecos digitais vai por água abaixo só de pensar que ele tá vivendo o puro romance offline com alguém e eu não.

Terceiro a gente compete com a nova namorada: "tô perdendo pra ela"

Por mais que a gente seja super trabalhada no feminismo e na sororidade, que atire a primeira pedra quem nunca se comparou com a atual do ex. E o perverso é que nosso olhar vai sempre em busca de coisas que consideramos nossas fraquezas e já projetamos serem forças da nova titular do cargo namorada do ex. Pra mim, essa pira da comparação vai bem além do físico: eu me pego olhando a habilidade da mulher em decorar a casa com objetos charmosos, as referências cult de cinema que posta; os lugares para os quais ela viajou e até os títulos dos livros na estante da casa (sim, dou print na foto do Instagram e dou zoom! Me julguem, rs).

Quando a gente está com a autoestima abalada automaticamente a "próxima" vira uma mulher incrível. Começamos a questionar nossa maravilhosidade e nos pegamos odiando uma mulher que nem conhecemos. Orquestradas pela pura competição feminina, colocamos essa mulher na caixinha de inimiga em vez de pensar que ela é uma mulher incrível que vai fazer alguém de quem já gostamos, muito feliz.

Momento lucidez: tem felicidade pra todo mundo!

Se descobrir que o ex tá namorando já incomoda quando estamos num momento pleno de nossa solteirice, receber essa informação quando carentes ou sensíveis (tipo na quarentena!) amplifica as dores e angústias à décima potência e o combo fatalismo e autopiedade vêm a todo vapor no mais puro clichê: "todo mundo vai se arranjar menos eu. Nunca vou encontrar alguém legaaal!" 

Temos todo direito de viver nossa carência e nossas frustrações amorosas mas temos que saber separar o joio do trigo: o namoro do ex não tem nada a ver com o momento ruim de nossa vida amorosa. Ela não pode ficar pior só porque a vida do cara mudou. Quando a gente entra nessa espiral derrotista, tudo vira motivo para vitimismo e a gente acha mais razões pro coração doer do que deveríamos. Eu tenho feito a meditação da abundância do Deepak Chopra desde o começo da pandemia e uma das coisas que esse famoso guru indiano fala é pra gente parar de vibrar nesse senso de escassez. Sei que parece papo "harebô" mas é verdade. Tem felicidade e amor pra todo mundo. Que nossos ex sejam felizes e nós também (com ou sem um novo par! Afinal, a existem muitos motivos pra celebrarmos nossa solteirice né?)

Se você quer saber como sobreviver à solteirice em tempos de likes, segue a gente no YouTube e no Instagram. Toda semana a gente entrevista solteiros, especialistas e divide nossos aprendizados e teorias. Mande histórias e dilemas que a gente transforma em pauta!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre os autores

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia. Comunicadores, puxam assunto até com o poste e são formados como psicólogos de boteco. Há um ano eles conversam com todo tipo de solteiros e especialistas no soltos s.a. um canal de youtube, instagram e, agora blog, pra explorar as dores e delícias dessa vida solta. Ninguém entende de solteirice como eles: já foram convidados pra falar na Casa TPM, na GNT e no podcasts Mamilos e Sexoterapia (aqui em Universa).

Sobre o blog

Um espaço para trocar estratégias para sobreviver à solteirice e aos relacionamentos em tempos de likes. Quando vale ter uma DR e quando podemos deixar morrer no silêncio? O que significa esse emoji? Assistir stories significa? Experts em solteirice e ótimos psicólogos de boteco, André e Carol compartilham dilemas reais de solteiros e mapeiam possíveis caminhos para não perder a sanidade mental nessa era de contatinhos.